Limite de uso anual dos recursos naturais no mundo já foi alcançado


A dívida que será acumulada até o fim do ano virá de diversas atividades que exploram o meio ambiente, como a redução dos estoques pesqueiros, o corte de árvores e a emissão de gás carbônico na atmosfera.

Poluição paira sobre Pequim: devido à enorme população e ao forte crescimento econômico, a China é o país com a maior pegada ecológica
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A humanidade está em dívida com a natureza: o limite anual de consumo dos recursos naturais no mundo acaba de ser ultrapassado, de acordo com a Rede da Pegada Global (GFN, na sigla em inglês), instituição internacional parceira da organização World Wildlife Fund (WWF). Neste ano, 20 de agosto foi definido como o Dia da Sobrecarga da Terra. Ou seja, em menos de nove meses, o homem usou tudo o que a natureza poderia oferecer sem se prejudicar até 2014, o que significa mais devastação. Nesse cenário preocupante, o Brasil aparece na lista de nações com crédito (gastam menos que sua capacidade ecológica permite), mas especialistas alertam para a necessidade de mais consciência no país para manter a sustentabilidade.

A dívida que será acumulada até o fim do ano virá de diversas atividades que exploram o meio ambiente, como a redução dos estoques pesqueiros, o corte de árvores e a emissão de gás carbônico na atmosfera. Como consequência, os especialistas preveem mais desastres naturais e prejuízos financeiros. “À medida que utilizamos os recursos ecológicos, diminuímos a capacidade de regeneração, e isso influencia a economia. Por exemplo, quando pescamos mais peixes do que deveríamos num lago, eles não se reproduzem. Assim, no ano seguinte, perderemos esse alimento”, explica Michael Becker, superintendente de Conservação do WWF-Brasil.

Becker afirma que o cenário mostrado pela pegada ecológica (área produtiva total que um país, pessoa ou comunidade precisa utilizar para manter seu estilo de vida) reforça a necessidade de uma maior preocupação com a maneira como os recursos têm sido usados. “Do mesmo modo que se utilizam na economia dados como o PIB e a inflação, deveria ser mantido um índice que mostrasse os gastos com o meio ambiente, pois os outros números se sustentam nos recursos ecológicos, são sua base.”

A China é o país que aparece com a maior pegada ecológica total, principalmente devido à grande população. A pegada por pessoa do país é muito menor do que a da Europa ou da América do Norte, mas nos últimos sete anos o gigante asiático ultrapassou os recursos disponíveis por pessoa no mundo todo. Becker destaca ainda que os relatórios elaborados para o Dia da Sobrecarga mostram um desequilíbrio na distribuição de recursos no mundo, já que alguns países possuem mais do que outros. “A China, atualmente, busca retirar recursos da África, mas como fica a população desse continente? Ela também vai precisar usufruir deles para sua alimentação, para sua sobrevivência”, diz.

Para Saulo Rodrigues, professor e diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (UnB), a pegada ecológica serve como um grande alarme para a sociedade mundial, que tem utilizado mais recursos do que deveria. “Esses números mostram que, para que haja sustentabilidade na nossa presença na Terra, precisamos de um desenvolvimento que não comprometa as gerações futuras. Mas, da maneira como caminhamos, não conseguiremos. Por isso, falamos que é insustentável o modelo de natureza que possuímos atualmente. Estamos dilapidando os recursos sem deixar as condições mínimas para a sobrevivência de outras gerações.”

Brasil 
O Brasil é uma das nações que ainda têm crédito na pegada ecológica, por conta de sua imensa biodiversidade. Porém, não deve descuidar nos gastos, pois a tendência é que esses números baixem. “A América Latina, mais especificamente a América do Sul, está numa posição única no contexto mundial, já que suas reservas ainda superam sua pegada ecológica”, informa Juan Carlos Morales, diretor regional para a América Latina da GFN, em comunicado à imprensa. “No entanto, esse padrão está mudando, e agora, mais do que nunca, os países da América do Sul precisam realmente compreender a produção e o consumo e seus recursos naturais para continuarem competitivos na nova economia”, completa.

Saulo Rodrigues diz que os dados relativos ao Brasil podem ser explicados por conta da desigualdade social e da alta quantidade de recursos ambientais, mas que a tendência é que esse cenário mude. “Como temos desigualdade nas classes sociais, uma grande parcela da população produz pouco. Os recursos naturais do Brasil também são grandes, mas acredito que isso poderá mudar daqui a cerca de 10 anos, com a situação se equiparando à de países desenvolvidos, dado o ritmo ao qual a exploração desses recursos seguem. Por conta disso, é necessário manter esse alerta.”

Pensando em formas de melhorar o uso dos recursos naturais, a WWF e a GFN estão calculando a pegada ecológica de maneira mais localizada. Campo Grande foi a primeira cidade a passar pelo cálculo, em 2010. No ano passado, a decisão de calcular a pegada do município de São Paulo foi apresentada durante a Rio+20, mas ainda não foi colocado em prática. “O cálculo traz informações importantes que ajudam no planejamento da gestão ambiental das cidades, com o melhor direcionamento das políticas públicas”, esclarece Michael Becker.

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