Sexualidade e superação no longa ´As Sessões´


Baseado em um drama real, longa “As Sessões” aborda sobre as tensões entre a deficiência e sexualidade

Ultimamente o Cinema tem se dedicado a tratar de exemplares casos reais de pessoas que não deram bola para as suas deficiências físicas e romperam os limites da condição humana, do preconceito e da sexualidade. Depois de “Intocáveis” (França, 2012), de Olivier Nakache e Eric Toledano, e “Hasta La Vista!” (Bélgica, 2012), de Geoffrey Enthoven, estreia com atraso na cidade o drama “As Sessões”, produção estadunidense dirigida por Ben Lewin, contando a história também real de Mark O´Brien (1949-1999), que contraiu poliomielite aos seis anos e, mesmo só conseguindo mexer três músculos do corpo e tendo que as noites dormir em um “pulmão de aço”, se formou em literatura inglesa na Universidade de Berkeley e na Graduete School of Journalism.

Helen Hunt está estupenda em seu papel, pelo qual deveria ter levado um Oscar, no ano passado: a atriz fica nua durante quase todo o filme

Conhecido na comunidade por se deslocar para as universidades de seu pequeno apartamento (no qual morava sozinho e recebia a colaboração do pai) em uma maca elétrica, O´Brien galgou o seu próprio espaço como uma pessoa dinâmica e batalhadora, superando os limites de sua capacidade física e servindo de exemplo para outras pessoas com deficiência.

Para isso, cofundou uma pequena editora, a Lemonade Factory, especializada em editar livros de poesias e romances de pessoas com deficiência. Seus livros de autorreferência como “How I Became a Human Being: a disabled man´s quest for independence” (na tradução “Como me Tornei um Ser Humano: à procura de um homem incapacitado por independência”), e poesias (“Breathing”), foram editados por grandes editoras, como a Quartely Co-Evolution. Ele escrevia seus textos utilizando-se, com a boca, de um pedaço de madeira com o qual batia nas teclas do computador, e, posteriormente, de um processador de texto.

A superação o levou a escrever um de seus artigos mais celebrados, no qual disse: “As duas mitologias sobre as pessoas com deficiência: 1. Não podemos fazer nada; e 2. Podemos fazer tudo, mas a verdade é que nós somos apenas seres humanos”.

Foi no jornalismo, contudo, que Mark conseguiu notoriedade. E quem lhe deu a chance foi Sandy Close, editor da Pacific News Service, que o contratou como correspondente. O´Brien fez várias reportagens sobre as deficiências e como as pessoas afetadas lidavam com elas. Utilizou o veículo para lutar pelos direitos das pessoas com algum tipo de deficiência. Chegou até se postar como advogado em casos de outras pessoas junto à Justiça.

Uma das pautas recebidas, sobre como os deficientes lidavam com a sexualidade, o levou a conversar com diversas pessoas e os depoimentos o encorajaram a tomar a decisão: virgem aos 38 anos, queria participar dessa descoberta. Para isso, expressou o seu desejo em um artigo: “Estou à procura de uma mulher inteligente, letrada de companheirismo e, talvez, para o jogo sexual, pois eu sou, como você vê, completamente paralisado, e, por isso, não haverá caminhadas na praia”.

Confira trailer AQUI!

 

Descoberta

No fundo, não alimentava esperança de sucesso, mas, para a sua surpresa, o artigo foi respondido por uma “sex-surrogates” (substitutas do sexo), Cheryl Cohen-Greene. O que acontece a partir daí está em “As Sessões”.

Dirigido por Ben Lewin, 66, polonês radicado desde 1979 em Hollywood e igualmente sobrevivente da pólio, “As Sessões” adapta o artigo “On Seing a Sex Surrogate” (“Se Consultando com uma Substituta Sexual”), no qual ele conta o processo de renovação da vida a partir das seis sessões de terapia sexual com Cheryl. Lewin, que é também o responsável pela adaptação do artigo, traz a história para o campo da humanidade.

Interessa a Lewin expressar a importância da sexualidade como elemento vital na existência. A jornada de O´Brien, narrada entre a realidade a ficção, é colocada nos dois campos de sua vida: a fé e a sexualidade. Como equilibrar, em um filme, os dois extremos que aparentemente são inaceitáveis? Católico praticante, O´Brien não queria confrontos com a Igreja e, para isso, consultou os padres de sua paróquia. De um deles, conseguiu o consentimento para praticar sexo “via terapia” e envolvendo “pagamento financeiro”.

O personagem do padre Brendan, o qual se constitui em confessor de O´Brien, é criação de Lewin. É através dele que o cineasta coloca o sexo, também, no nível da espiritualidade. É aí “As Sessões” promove as reflexões a partir das exigências da religião de sexo apenas no casamento. Há implicações humanas, sociais e da própria religião, todas no campo filosófico.

Em uma narrativa pontuada por personagens que compõem um painel da existência humana em suas mais diversas condições, “As Sessões” celebra a renovação da vida a partir do afeto, do carinho, do companheirismo e abrem, para O´Brien, as portas para o amor. Aceitam-se de pronto a afirmação de alguém de que “ninguém é uma ilha”.

Em entrevista, Cheryl Cohen-Greene (que é casada e tem filhos), disse que se assuntou quando viu, pela primeira vez, aquele corpo muito frágil à medida na qual tirava a camisa e seus braços doíam quando ela os tocava. Até então, ele só tinha sido tocado por médicos, atendentes e enfermeiras, além de sua ajudante cotidiana. “Ele me disse que sentiu como se estivesse do lado de fora olhando para dentro de um banquete, mas que ele sabia que nunca seria capaz de provar aqueles alimentos”, disse Greene, com emoção. “Assim que o conheci, jurei que ele teria a chance de provar do banquete”, revelou.

Um dos trunfos de “As Sessões” é a entrega de seus atores, especialmente de Helen Hunt, brilhante, e que deveria ter levado o Oscar de atriz coadjuvante (deu Annie Hathaway, por “Os Miseráveis”). Ela passa grande parte do filme despida por inteiro. E John Hawkes, que vive O´Brien, e William H. Macy, interprete do padre Brendan, estão igualmente notáveis.

Com extrema sensibilidade e uma delicadeza capaz de emocionar, Ben Lewin faz de “As Sessões” uma homenagem a Mark O´Brien e sua corajosa jornada de existência. Mas, vai muito além.

Trata a igualdade nas diferenças que nos fazem seres humanos e da descoberta do amor e da sexualidade como fontes da renovação da vida. É com essa renovação que O´Brien deixa para trás a sua vida de solitário. A deficiência não é limite para a sexualidade. E afirma: o banquete é para todos.

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