Na Índia, vacas sagradas estão ameaçadas por tráfico para consumo.


Gangues ‘sequestram’ animais nas ruas e comercializam carne e couro.
Polícia tenta combater prática, que se tornou intensa nos últimos tempos.

Exemplar de vaca, animal considerado sagrado na Índia, é visto em rua de Nova Déli. Gangues agem para roubar animais e vendê-los para consumo humano (Foto: Enri­co Fabia­n/The New York Times­)

Exemplar de vaca, animal considerado sagrado na Índia, é visto em rua de Nova Déli. Gangues agem para roubar animais e vendê-los para consumo humano.

Moradores de Nova Déli, na Índia, tentam combater uma prática que se tornou frequente nos últimos tempos: quando a noite cai, gangues saem às ruas à procura de vacas, presas fáceis em meio à vasta população de rua, que são levadas em caminhões.

A polícia diz ter intensificado as patrulhas e montado bloqueios nas ruas na tentativa de acabar com o tráfico. Houve casos de policiais que se infiltraram nas gangues na esperança de pegá-los no flagra. Mas os sequestros brutais continuam, e as vítimas – vacas magras, animais que estão lentamente perdendo seu status sagrado por parte da população na Índia – são abatidas e vendidas para produtores de carne e couro.

O roubo de gado, conhecido aqui como “lifting”, tem se tornado uma praga crescente em Nova Déli, à medida que indianos cada vez mais ricos adquirem gosto por carne, mesmo a de vaca, animal considerado sagrado pelo hinduísmo.

Os criminosos chegam a roubar cerca de 40 mil animais que perambulam pelas ruas da megalópole, vendendo-os em seguida aos matadouros ilegais localizados em aldeias não muito distantes.

Grande parte do gado que vive em Nova Délhi faz parte da produção leiteira e seus proprietários não têm nem terra nem dinheiro para mantê-los em um curral. Assim, os animais pastam na grama das faixas centrais das ruas ou nas onipresentes pilhas de lixo. Outros, velhos demais para a ordenha, são muitas vezes abandonados e largados vagando pelas ruas até morrerem – ou serem pegos pelos ladrões.

‘Velozes e furiosos’

Pelotões de policiais perseguem os bandidos, mas os contraventores – dirigindo caminhões de lixo “tunados” – não hesitam em se chocar com os carros de polícia e passar sem parar por barricadas. Eles até mesmo já empurraram vacas pelo caminho por onde passariam os seus perseguidores, obrigando os oficiais horrorizados a desviarem para evitar o que para muitos ainda é um pecado grave.

“Essas gangues costumam ir atrás principalmente de vacas perdidas, mas também roubam motocicletas e lambretas”,

disse o oficial da polícia Bhisham Singh em uma entrevista.

“Recentemente, eles sequestraram e estupraram uma mulher”.

Há, por trás do roubo de gado, uma profunda mudança na sociedade indiana. O consumo de carne – frango, principalmente – está se tornando aceitável mesmo entre os hindus. A Índia é hoje o maior produtor de leite, o maior produtor de gado e o maior exportador de carne bovina do mundo, tendo ultrapassado o Brasil no ano passado, de acordo com o Ministério da Agricultura dos EUA.

Grande parte dessa carne exportada é de búfalo (a Índia tem metade da população de búfalos do mundo), que não são considerados sagrados. Mas as autoridades de Andhra Pradesh estimaram recentemente que há 3.100 matadouros ilegais no estado e apenas seis licenciados.

Além disso, uma recente investigação jornalística revelou que dezenas de milhares de cabeças de gado são vendidas anualmente para abate em um mercado em apenas um dos 64 distritos do estado. Matar vacas é ilegal na maior parte da Índia, e alguns estados proíbem que se esteja de posse de carne de vaca.

A maior parte da carne ilícita provavelmente é vendida como búfalo, uma maneira fácil de esconder um ato sacrílego. Mas às vezes ela chega aos vendedores de carne de Déli, cujos números de celular são repassados clandestinamente. É possível encomendar carne desses vendedores ilegais em operações que são realizadas de maneira que lembra o tráfico de drogas.

Há, por trás do roubo de gado, uma profunda mudança na sociedade indiana. O consumo de carne – frango, principalmente – está se tornando aceitável mesmo entre os hindus. A Índia é hoje o maior produtor de leite, o maior produtor de gado e o maior exportador de carne bovina do mundo, tendo ultrapassado o Brasil em 2012

Consumo cresce entre os pobres

A carne de gado também é amplamente consumida pelos muçulmanos e dalits, que estão entre os cidadãos mais marginalizados da Índia. De fato, as estatísticas do governo mostram que o consumo de carne está crescendo principalmente entre os pobres; no total, o consumo de carne cresceu 14% de 2010 a 2012.

Anuj Agrawal, de 28 anos, contou que cresceu em uma família hindu estritamente vegetariana, mas experimentou frango pela primeira vez na adolescência, quando estava em um restaurante com amigos. Hoje ele come todos os tipos de carne, incluindo bifes e hambúrgueres.

“Depois que a pessoa prova carne, é impossível que ela volte a consumir apenas frutas e legumes”,

disse Agrawal.

Anuj conta que muitos de seus amigos passaram por transições semelhantes. Mas ele nunca come carne com os avós:

“Eu seria excomungado se fizesse isso, então minha alimentação é totalmente vegetariana quando estou com eles. Eu quero guardar alguma herança”.

Até certo ponto, a aceitação cada vez maior da carne é resultado do intenso foco do governo no aumento da produção leiteira, o que levou a uma proliferação de tipos estrangeiros de gado que não suscitam a mesma reverência que os indianos, disse Clementien Pauws, presidente da Sociedade Karuna de Animais e Natureza, uma agência de bem-estar animal com sede em Andhra Pradesh.

“Hoje as vacas remetem a negócios e dinheiro, não à religião”,

disse Pauws.

“Elas são todas levadas para os matadouros. É terrível”.

Isso não quer dizer que comer carne de gado é algo amplamente aceito. A grande maioria dos hindus ainda reverencia as vacas, e o Bharatiya Janata, um dos dois principais partidos políticos do país, exigiu que as leis contra o abate de vacas sejam reforçadas. Alguns proprietários chegam a se recusar a alugar terra para quem confessa ter o hábito de consumir carne.

Mas a demanda por carne bovina continua subindo, dizem muitos aqui, e, com ela, a prevalência de roubo de gado. No ano passado, a polícia de Déli prendeu 150 ladrões, um número recorde. Neste ano, as prisões continuaram a crescer, disse Singh.

“O status social e religioso das vacas está sob ataque na Índia”

Brijinder Sharma, gerente de abrigo para vacas.

Vacas sagradas, mas valiosas

Normalmente, os ladrões chegam discretamente à cidade durante a noite. Quando os criminosos identificam a presença de vacas perdidas e de poucas testemunhas eles param o caminhão, descem uma rampa e usam uma corda para levar a vaca ao seu destino fatal.

Os ladrões geralmente conseguem acomodar cerca de dez vacas em um caminhão, e cada uma atinge o valor de mil rúpias (cerca de US$ 94). Em um país onde mais de 800 milhões de pessoas vivem com menos de dois dólares por dia, ganhar uma bolada de mais de 900 dólares em uma noite representa uma grave tentação.

Um homem que ajudou a polícia em Uttar Pradesh, cidade vizinha, disse que os ladrões muitas vezes conseguiam não ser presos graças a subornos.

“Mesmo quando são mandados para a prisão, acabam sendo soltos de 10 a 15 dias depois e cometem os mesmos crimes de novo”,

disse o homem, que não quis que seu nome fosse citado por medo de represálias.

O destino infeliz de parte do gado de Déli levou alguns hindus a criarem abrigos de gado no entorno da região metropolitana. Um dos maiores é o Shri Mataji Gaushala, onde milhares de cabeças de gado vivem em cerca de 17 hectares.

O socorro às vezes chega tarde demais. Brijinder Sharma, gerente de abrigo, cujo escritório tem paredes decoradas com imagens de Krishna abraçando um bezerro, nos mostrou um vídeo de um caminhão carregado com gado que foi apreendido enquanto seguia para um matadouro ilegal. Muitas das vacas já haviam morrido de exaustão pelo calor.

“O status social e religioso das vacas está sob ataque na Índia”,

disse Sharma. Ele espera que seu abrigo, que tem um orçamento anual de US$ 5,4 milhões, sustentado quase que inteiramente por indianos ricos que emigraram para os Estados Unidos, ajude a reverter essa tendência.

À tarde, uma multidão de vacas, felizes e curiosas, aglomerou-se no abrigo na hora da refeição. O vaqueiro Abhishek, que disse não ter sobrenome, gritou “Sakhi! Sakhi!” em meio ao rebanho, que não parava de mugir. Uma vaca enorme com grandes chifres correu para a frente da multidão, e Abhishek a beijou no nariz. A vaca respondeu lambendo um lado inteiro de seu rosto, e Abhishek sorriu.

 

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