«Heterossexualidade não é natural», diz sociólogo.


Apesar das mudanças sociais e a maior abertura em relação à discussão da sexualidade, os bissexuais ainda são vistos com desconfiança e são alvo de preconceito. Um exemplo é Daniela Mercury, que desde que assumiu o seu relacionamento amoroso com uma mulher tem sofrido críticas. A declaração da cantora atingiu também o seu ex-marido, Marco Scabia. Ter dito que aceitava com naturalidade a sexualidade da ex-mulher causou estranheza e rendeu-lhe ser ironizado até na imprensa.

«Heterossexualidade não é natural», diz sociólogo

Para Richard Miskolci, professor do departamento de Sociologia da UFSCAR (Universidade Federal de São Carlos), a sociedade exerce uma forte influência para que os indivíduos definam-se como heterossexuais. «Todos têm essa possibilidade de se relacionar com o mesmo sexo, mas, no processo de socialização, as pessoas podem perdê-la. Desde crianças somos adestrados. Heterossexualidade não é algo natural, hoje sabemos que ela é compulsória», declara Miskolci.

O site de relacionamentos extraconjugais Ashleymadson, no Brasil desde Agosto de 2011, tem um serviço, ainda em teste, destinado a bissexuais.

O número de homens registados para utilizá-lo chamou atenção a ponto de provocar a aceleração da implantação do acesso ao serviço em português.

«São homens que se dizem casados atrás de outro homem. Como é baixo o número de casamentos gays no Brasil, entendemos que seja um casamento heterossexual, cujas pessoas procuram alguém do mesmo sexo», diz o director Eduardo Borges.

O site tem um milhão de registados e cerca de 25 mil utilizadores  no serviço para bissexuais.
 

«Nas ciências sociais, desde a década de 1960, começaram a surgir estudos que mostram que as pessoas são socialmente treinadas para gostar do sexo oposto», afirma o professor, que pesquisa o uso das redes sociais destinadas a pessoas que procuram parceiros amorosos. «Muitos homens casados ou com noiva e namorada criam perfis a procurar um relacionamento com um outro homem, a maioria em segredo».

A educadora Juliana Inez Luiz de Souza, 25 anos, que também é assessora numa central sindical de Curitiba, no Paraná, conta que é muito comum sofrer preconceito quando está de mãos dadas com a sua mulher. «Ouço frases do tipo: “Posso entrar no meio?” ou “Sapatão dos infernos”», declara Juliana. «Mas não é porque sou casada com uma mulher e pretendo ficar muito tempo com ela que eu sou lésbica. E também não significa que quando estou com um homem sou heterossexual. Sou bissexual. E as pessoas precisam de saber que isso existe».

Em Dezembro de 2008, ao receber um prémio, Jodie Foster agradeceu Cydney Bernard, a sua companheira durante mais de 15 anos, pela ajuda no quotidiano. Quatro meses depois a relação terminou. Na cerimónia dos Globos de Ouro em Janeiro de 2013, Jodie Foster emocionou os colegas de trabalho ao comentar a sua orientação sexual. «Já saí do armário há milhares de anos», afirmou.

Além dos problemas enfrentados por Juliana, muitos outros podem aparecer no caminho de quem decide mostrar à sociedade que essa é a sua orientação sexual. «O bissexual sofre muito preconceito. Já ouvi muitas vezes que não existe bissexual, mas homossexual que não quer se assumir. Isso não é verdade», afirma o psiquiatra, sexólogo e director do departamento de Sexualidade da Associação Paulista de Medicina Ronaldo Pamplona da Costa.

Segundo a psicanalista Regina Navarro Lins, é comum a acusação de que os bissexuais ficam em cima do muro. «São tidos como gays tímidos. Numa cultura de mentalidade patriarcal, se disser que é bissexual, também informa que faz sexo com o seu oposto, o que pode amenizar um pouco o preconceito», afirma Regina, que é autora de onze livros entre os quais «A Cama na Varanda» e «O Livro do Amor» (editora Best Seller), além de manter um blog no UOL
 
Além de classificados como indefinidos sexualmente, os bissexuais também podem ser considerados promíscuos por alguns, como conta Juliana. «É outro cliché: bissexual é um pervertido. As pessoas têm a visão que bissexual não se completa só com um na hora da cama, que precisa ter o outro», fala a assessora, que completa: «Eu contento-me muito bem, seja com um ou com outro. Estou casada com uma mulher há três anos e a minha relação é monogâmica, como a maioria dos casamentos, no estilo tradicional».

A psicóloga Claudia Lordello explica que essa é uma ideia errada a respeito das pessoas com essa orientação. «O bissexual pode ter relacionamentos estáveis e duradouros», afirma ela, que também é sexóloga do projecto Afrodite, o ambulatório de sexualidade feminina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Anúncios

Deixe o seu comentário ele é muito importante para nós.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s